terça-feira, 2 de outubro de 2012

Honra Ordinária

Seus olhos se abrem. Não querem, mas se abrem.
Um suspiro involuntário manifesta a frustração de sua alma por ter o descanso interrompido. A mão direita tateia o criado-mudo, procurando cegamente desligar o berro matinal do espirito agourento que mora ali em cima. Por um momento, parece impossível se mexer mais que isso. No momento seguinte, o sentimento piora. O mundo inteiro está sentado em seu tórax, comprimindo-o sobre a cama, fazendo com que cada fibra de seu ser proteste contra o ato de levantar.
Mas há algo que o impede de ficar estático. Algo como o senso de honra de um cavaleiro arturiano. Sua honra não lhe permite permanecer deitado, tanto quanto a honra de Sir Lancelot não o permitiria entrar com vantagem em um combate.
Isso, no entanto, não é bem verdade, ou é? Sir Lancelot, afinal de contas, era o melhor cavaleiro do mundo, portanto sempre estaria com a vantagem. Assim como nosso guerreiro, apenas por ser quem é, não poderia agir de outra forma que não se pôr de pé e seguir a vida. Talvez não seja certo então falar em honra, já que não existe realmente uma escolha.
Contudo, quando ele enfim consegue se sentar e sente o Mundo sendo transferido do tórax para os ombros, a vontade de desistir é arrasadora. Opressiva. Esmagadora
Assim, não deixa de ter um quê de heroísmo o ato de finalmente pôr o peso do corpo sobre os pés no chão.
E então, heroicamente, ele levanta. Estoicamente, ele vive.
Deixa sua fortaleza arrastando os pés com mais ou menos o mesmo ânimo de um cadáver, pronto para passar por mais um dia que, como boa parte de todos os outros, não fará a menor diferença no resto de sua vida.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Ficção

Pelos últimos dez minutos em que João esteve olhando para fora, nenhuma alma viva passou na rua. A eletricidade havia sido cortada bruscamente em todo o bairro, de modo que a única fonte de luz lá fora era a lua, enorme e redonda. Dentro do apartamento, João contava com uma vela. Passara algum tempo se divertindo queimando coisas, já que não tinha nada para fazer com a luz cortada. Parou quando a tampinha da Coca-Cola já estava escorrendo viscosamente pela mesa, fazendo uma bagunça que ele não se atreveria a limpar até que a eletricidade voltasse.
Um gato qualquer miou, alguns cachorros da rua latiram, e ele, com um sobressalto, afastou-se da janela. Suspirou, alongou o pescoço e resolveu que deveria arranjar alguma coisa para fazer, já que não parecia que a luz ia voltar tão cedo.
Estivera estudando antes de tudo escurecer, e suas coisas ainda estavam espalhadas em cima da mesa. Puxou um caderno e uma lapiseira para perto da vela. Começou a fazer uns rabiscos, depois resolveu escrever um conto. Não sabia exatamente sobre o quê, apenas tinha se empolgado com a ideia de escrever a luz de vela, como naqueles filmes de época.
Uma personagem foi surgindo. Mulher jovem, com os cabelos pretos presos num coque bagunçado, vestindo moletom de domingo. Estava estirada no sofá da sala, com o notebook no colo; ela também escrevia um conto, que pretendia publicar em seu blog com o nome de Molly. Usava vários nomes diferentes ao assinar seus textos, e essa era apenas uma de suas esquisitices.
Ela costumava escrever mais antigamente, mas esse ano tinha pouquíssimo tempo para isso. Há cerca de seis meses, a preparação para o vestibular vinha lhe tomando basicamente todas as suas horas. Além disso, sua amiga estava há mais de um mês no hospital, correndo risco de vida. Toda a família dela lhe era querida, e todos estavam, obviamente, aflitos. Era horrível a sensação de não poder fazer nada a respeito. Nessas crises, Molly sempre era assolada por uma série de questões existenciais, sobre fé, religião, esperança e essas coisas. Isso tudo contribuía para que ficasse ainda mais deprimida, e somava-se com a culpa por estar desviando a atenção do que deveria ser sua prioridade: o vestibular. E ao mesmo tempo, não queria ser o tipo de pessoa que consegue ficar focada nos estudos, impassível enquanto seus amigos estão em profundas aflições. Tudo muito confuso.
Escrever sempre fora sua válvula de escape, mas há quase seis meses não conseguia encontrar tempo para sentar em frente ao computador e construir um texto do começo ao fim (embora, em sua mente, nunca deixasse de fazê-lo). Só que naquela tarde, a necessidade ficou muito grande. Mesmo não tendo tempo, mesmo fazendo isso no momento em que deveria estar fazendo qualquer outra coisa, naquela tarde ela simplesmente não conseguiu se controlar.
João ajeitou-se na cadeira, interessando pelas implicações psicológicas de sua personagem. Achou que deveria definir sobre o que ela estava escrevendo. Assim como ele, Molly não parecia ter muito planejamento – deixava as palavras lhe conduzirem. Nesse momento, contava a história de um personagem homônimo ao seu criador.
Há cerca de duas semanas, o seu João tinha sido chutado por uma namorada de longa data, com quem ele sempre acreditara que iria se casar. Ficara um tanto quanto desnorteado com essa mudança brusca em sua vida, e agora seu humor alternava-se entre um estado depressivo e um conformado. Por um lado, todos os seus objetivos haviam se dissolvido. Por outro, sempre poderia encontrar novos. Afinal de contas, era jovem. Bom, é claro que isso depende do ponto de referência. Mas não tinha pressa em formar uma família. Podia aproveitar para se dedicar a sua carreira, quem sabe viajar, conhecer aqueles países sobre os quais crescera ouvindo falar. No momento, não tinha muito dinheiro, mas oportunidades estavam aparecendo, então quem sabe? Claro que precisava antes comprar um carro - poderia dormir pelo menos uma hora a mais de manhã se pudesse ir de carro ao trabalho. Como fazia faculdade à noite, isso faria bastante diferença. Mas também tinha que lembrar que estava com o aluguel atrasado, então talvez o carro ficasse pra mais tarde. O carro, a viagem, a família...  parecia que a vida estava sempre sendo adiada.
Pensando nisso, na verdade, talvez nunca se casasse. Talvez fosse a hora errada para chegar a essas conclusões, mas não conseguia se ver casado com mais ninguém que não fosse ela. Nem conseguia se ver saindo com mais ninguém. Algo parecido com desespero criou um nó em sua garganta, e ele sacudiu a cabeça para espantar esses pensamentos. Um gato miou na rua, alguns cachorros latiram, e ele saiu da janela, sentou-se a mesa e puxou uma vela para perto do caderno de anotações. Começou a fazer alguns rabiscos.
Molly se inclinou por sobre o ombro de João para ver o que ele estava escrevendo. Ficou espantada ao ver que seu nome constava no texto. João ergueu a cabeça. Seus olhares se encontraram, e ambos sentiram um profundo arrepio na espinha.
Seus universos se embaraçaram, e não se sabia mais quem pertencia a quem.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Luz dos Olhos Dela

“Nós nos conhecemos no ponto de ônibus. Eu a via todos os dias de manhã. Ela estava sempre com os fones de ouvido, olhando para o além. Seus olhos eram muito interessantes, redondinhos, de uma cor indefinida entre verde e azul. Às vezes pareciam verdes e brilhantes, às vezes azuis e profundos. De qualquer forma eram adoráveis. Até insuportavelmente adoráveis. Eu quase poderia comê-los...”
- Comê-los?
- É. E ela era tão bonita. Quer dizer, quando estava lá fitando o vazio não parecia grande coisa, mas às vezes ela dizia “bom dia” com um sorriso... quando ela sorria, ficava completamente estonteante...
- Desculpe, mas você disse algo sobre vontade de comer os olhos?
Ele pareceu atordoado, como se acabasse de acordar de um devaneio.
- O quê?
O doutor se inclinou para frente, franzindo o cenho.
- Você comeria os olhos dela?
O paciente, confuso, respondeu com uma careta.
- Claro que não.
- Como você está encarando o seu desaparecimento?
Agora o paciente pareceu genuinamente perdido.
- Desaparecimento de quem?
-
Ao chegar em casa, a primeira coisa que ele fez foi constatar que seu par preferido de globos oculares ainda estava lá, bem conservado. Aliviado, gastou um tempo admirando-os e depois foi dormir alegre e sem preocupações.

domingo, 2 de outubro de 2011

(Des)encontro

Esses dias achei por aqui a música que um amigo meu fez sobre o texto abaixo, postado pela primeira vez há uns dois anos no antigo blog. Isso tudo me fez lembrar do porque eu gostava tanto desse texto, então resolvi postar de novo, sem nenhuma alteração.

Ele fazia aquela viagem todos os dias. Sempre pegava o mesmo ônibus, para o mesmo lugar, logo depois de comer sempre a mesma coisa no café. Gostava das coisas desse jeito, em seus devidos lugares, tudo como sempre foi - ninguém sabe o que se pode acontecer quando você pega outro ônibus, ou come biscoitos ao invés de torradas.Um dia, enquanto esperava o ônibus, uma mulher sentou-se ao seu lado. Ele nunca a tinha visto até então. No início não deu atenção, mas em um momento qualquer seus olhos se encontraram, e ele descobriu que não poderia sair dali sem saber quem era ela. Distraiu-se, pensando em uma maneira de puxar assunto, até que o ônibus chegou, ele entrou e foi embora, sentindo que deixara uma parte de si para trás.
Eles nunca mais se viram. Ele seguiu com sua vida assustadoramente tranqüila, pegando todo o dia o mesmo ônibus, para o mesmo lugar, procurando à mesma coisa.
 Sempre lhe disseram que quando a visse, saberia.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Verdade de Lugar Nenhum

Era uma vez um jardim ensolarado, cercado por muros, no meio de Lugar Nenhum.  As pessoas de lá costumavam viver felizes para sempre.
Um dia, dois amigos foram passear perto das fronteiras e encontraram um bichinho estranho preguiçosamente acomodado numa raiz saliente. Era como um ratinho, listrado e gordo, com olhos pretos de fuinha, realmente adorável.
- Eu nunca vi um desses! – exclamou a moça, se abaixando para examinar mais de perto – O que você acha que é?
O rapaz se aproximou também, mas estava concentrado na muralha que separava o jardim do mundo exterior. Pela primeira vez percebeu que havia uma fenda, quase um buraco, de tamanho suficiente para deixar passar um animalzinho.
- Eu acho que veio de fora.
Os dois se entreolharam e nunca mais foram felizes para sempre.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

I've Got a Feeling

Cada músculo do seu corpo doía como se tivesse corrido uma maratona. 
Seus olhos estavam inchados de sono. Tinha uma pilha de coisas para fazer lhe esperando em casa. 
Algumas pessoas queridas estavam com raiva. Algumas coisas estavam saindo erradas.

Andava pela rua seguindo o ritmo de uma música suave que ressoava em sua mente. Não cantava em voz alta porque não tinha energia nem mesmo para isso.

Sorria.
As pessoas que olhavam de longe deviam achar que estava bêbada. 

Não importava se nada mais desse certo a partir de agora. Ela estava dentro de um sonho sobre um sonho que viveu.E nem importava se isso não fizesse sentido.

Ela estava feliz. E só.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

(Des)esperança

Desespero.

O Medo provindo do que é inevitável.
Tentar mudar o imutável, abraçar o infinito, conquistar o inexpugnável.
Confrontar os gigantes de armaduras de aço enquanto munido apenas do que quer que lhe motive.
Conforto, ambição, paixão, glória. Sonho. Salvação.

Tentação.

Ninguém pode ouvir seus gritos. 
Torturando o corpo com o trabalho árduo, sem nenhuma razão aparente.
A cama parece tão confortável, mas a alma teme jamais se levantar uma vez encontrado o descanso.

Razão.

Desviar a atenção da busca pelo fim dessa sufocante falta de sentido.
Criar um sentido. Fingir um sentido.
Procurar algo que lhe aquiete o espírito.
Algo que venha com a certeza de que este tortuoso caminho vai dar exatamente onde se quer chegar.
Que o fim é puro, feliz e verdadeiro. Que vai secar suas lágrimas, cicatrizar suas feridas e preencher o vazio de sua alma.

Medo.

Crescente, sombrio, reprimido, recolhido.
Veja aquela pedra: está escrito que não há nada na outra extremidade.
E justo ela, a mais a absoluta das fontes, está errada.
Precisa estar. Pois senão esta alma seria mais uma jogada ao desespero.
Cada gota de sentido, cada mísera justificativa em que foi estruturada esta alma que vos fala se dissolveria como açúcar na água. 

Salvação.
 
Já não é mais a fé que mantém esta alma na estrada.
É a certeza de que é preciso ter alguma certeza, ainda que seja apenas a certeza de estar sempre a procurá-la.